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Muito prazer,
Denise Carla*
Sempre gostei de Samba. Minha mãe bem que tentou que eu gostasse de balé,
sapateado, dança contemporânea, jazz... Mas, não teve jeito: desde pequena eu
gostava mesmo é de ouvir um bom baticumbum e de exibir meu Samba no pé em
bailinhos infantis vestida de bailarina, índia, baianinha ou o que quer que
fosse.
Mamãe até que segurou a minha onda enquanto pôde. E, apesar de eu ter nascido em
plena Estrada do Portela, em Madureira, e de ter passado a minha infância em
Bento Ribeiro, também no subúrbio do Rio de Janeiro, tive que encarar muito pas-
de- deux em aulinhas do colégio pra não frustrá-la.
Da infância pra adolescência veio a fase dos bailes carnavalescos em clubes
militares (sim, sou filha, sobrinha, afilhada e prima das mais variadas patentes
da Marinha de Guerra e Mercante). E dá-lhe mais Samba no pé. Mesmo assim, com a
minha mãe ali: me segurando com rédea curta.
Para alegria da família comecei a fazer Enfermagem; e para desespero de todos
larguei uns cinco períodos depois, quando cheguei à conclusão de que aquela não
era a minha praia. E posso até afirmar que o Samba foi o responsável por essa
decisão. Explico: naquela época, já freqüentava a casa de Martinho da Vila, no
Grajaú, na condição de amiga de Analimar, Mart´Nália e Martinho Filho, os três
primeiros filhos dele com a saudosa Anália. E a jornada era árdua: roda de Samba
que varava a madrugada na casa do Ferreira e ter que acordar às 6 da manhã,
vestir o uniforme e partir para os Hospitais da Polícia Militar ou da
Aeronáutica, onde eu estagiava. Entre estágios e turnos integrais, costumava
alternar meus horários vagos com rodas de Samba no Cacique de Ramos; no Clube do
Casquinha, no Helênico; no pagode da Tia Gessy, no Cachambi; na Casa de Bamba,
no Campo do América... Resumo da ópera: o Samba na veia falou mais alto e as
veias dos pacientes viraram coisas do passado.
O jornalismo veio por eliminação. Mas, assim que comecei a fazer a faculdade
percebi que tinha feito a escolha certa. Martinho da Vila foi o meu primeiro
patrão. Estagiei na ZFM Produções Artísticas por um tempo, aprendi muita coisa e
vivi uma fase ímpar da minha vida: li, ainda manuscrito por Martinho da Vila, o
enredo Kizomba, da Vila Isabel; assisti a vários encontros de movimentos negros
liderados pelo “Da Vila” e cia; participei da produção da mensagem de fim-de-ano
da TV Globo em plena comemoração do centenário da Abolição da Escravatura com a
participação de várias personalidades negras; e testemunhei a criação do Samba
em homenagem à Clara Nunes, com as presenças de sambistas de primeiro time e que
foi imortalizado na voz de Alcione. Um luxo que só a universidade da vida
consegue proporcionar. Tempos depois, virei personagem de um dos livros de
Martinho. Posteriormente, revisei outros dois e, para meu orgulho, escrevi a
orelha do mais recente.
A formatura da outra faculdade, a do diploma, veio em 1988 e um ano depois já
estava na Rádio Tropical, minha grande escola: de Samba e de vida. Armando
Campos tinha uma enorme qualidade: investia em que estava começando; fazia você
acreditar que era capaz de realizar o melhor. E ai de quem provasse o
contrário..rs
Lá era carnaval o ano inteiro. Cobríamos os desfiles de blocos, carnaval de rua,
ensaios das Escolas de todos os grupos, preparativos no barracão (ainda lá no
Pavilhão de São Cristóvão). E tinha ainda os agitos dos programas com convidados
especiais; shows nas praias com Reinaldo, Jovelina Pérola Negra, Grupo Fundo de
Quintal, Jorge Aragão, Marquinhos Satã (era assim que ele assinava na época),
Samba Som Sete, Zeca Pagodinho... Foi naquela época que a minha mãe viu que não
tinha mais jeito e parou de tentar me afastar do Samba!
De lá pra cá passei por muitos lugares e fui me especializando naquilo que
sempre gostei desde criança. Em 20 anos de cobertura do desfile das Escolas de
Samba, eventos e de shows de sambistas (com breves intervalos entre um emprego e
outro) passei pela TV Manchete, Revista Só Pagodes, Assessorias de agremiações,
TV Globo... E, atualmente, conduzo o site Papo de Samba, onde mais do que um
grupo de colaboradores que escrevem por lá reúno amigos queridos que conheci
pelos Sambas da vida.
As histórias do Samba são muitas. Comecei junto com muita gente que hoje está no
auge; convivi com muitas pessoas que estiveram no topo e hoje ninguém sabe onde
está; conheci tantas outras que já nem estão mais entre nós fisicamente; e ainda
acompanho a chegada de mais alguns. Mas o melhor disso tudo é que participei de
muita coisa boa. Mais que isso: vivi muita coisa boa! E se hoje ouso escrever e
falar sobre Samba, faço pelo o que eu vi, vivenciei e acompanhei,
profissionalmente ou não. E ainda assim, acho que tenho muito a aprender.
Com o Samba fiz meu nome, paguei minhas contas, fiz amigos, ganhei cultura, crio
meu filho... E se isso por si só não fosse o suficiente para continuar a gostar
do tema e de tudo que o envolve, eu poderia até escrever bem mais. Mas, prefiro
parar por aqui. Até porque, ao escrever esse artigo fiquei com sintomas de
saudades.
* DENISE CARLA é
Jornalista, Relações Públicas e Editora do site Papo de Samba (www.papodesamba.com.br).
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